AS MINHAS ALUNAS,  AS MULHERES DE SÃO TOMÉ

20-11-2017

A Catarina é a primeira a chegar ás minhas aulas. Quando chego á sala do antigo hospital da roça São João dos Angolares, onde o nosso espaço de trabalho foi montado ela já lá está á minha espera sorridente, amável, educada e sempre assídua com a sua pasta organizada com todo o material que lhe forneci. Traz consigo a vontade de aprender e principalmente a oportunidade de sair de uma situação desesperante que é a sua. Desempregada, mãe de 3 filhos e avó aos 44 anos vê-se sem companheiro faz algum tempo. Foi um dia peixeira mas hoje o peixe já começa a ser escasso e o dinheiro que faz na venda não chega para sustentar a sua família. Vive numa pequena casa palafita sem casa de banho ou cozinha. Lava a louça na bica e a roupa no rio como a grande maioria das mulheres São-Tomenses.

Foi convidada pelo João Carlos Silva, o chefe de cozinha do programa "na roça com os tachos" e dono desta roça, a frequentar as minhas aulas juntamente com mais 6 mulheres. São praticamente todas Angolares e mais tarde juntam-se a nós, três das suas funcionárias vindas da capital. Não sou de grandes perguntas sobre as suas vidas pessoais, limito-me a ensinar um pouco do que aprendi em todos este anos e a garantir que entendem o que eu explico.

Para além das nossas realidades tão distintas eu gosto do jeito delas, são mulheres simples, muito humildes e de todas as idades onde existe um respeito mútuo e muita vontade de aprender. Algumas das mais novas confundem design de moda com ser modelo e no terceiro dia ficam-se pelo caminho. Eu já disse aqui que os São-Tomenses tem um forte sentido de humor, talvez pelas nossas diferenças e do modo de estar na vida eu acho tudo deliciosamente humorístico mesmo quando chego exausta ao final das aulas depois de tanto explicar o mesmo. Muitas me disseram " Catarina, você tem muita paciência connosco" ,eu sempre me achei impaciente mas depois deste curso eu tive de lhes dar razão.  

 A Catarina talvez fosse das que tinha maiores dificuldades em aprender e sentia-se frustrada por isso, mas nunca desistiu, mesmo tendo pensado nisso a meio da formação, confidenciou-me no fim. Quase sempre tinha de lhe enfiar a linha na agulha que eu acusava da sua falta de visão, o ponto sempre torto mesmo com as linhas de guia para que tal não acontecesse e a maior parte do tempo a desmanchar o que não estava bem. Era o seu calcanhar de Aquiles. Eu tentei-lhes incutir esforço, brio e competitividade para que o trabalho fosse bem apresentado, porque aqui e uma vez que não existe grande concorrência o que está feito está bom.

A formação de dois meses foi curta mas foi a possível, o ir e vir da capital para o sul da ilha foi-se tornando rotina e a sua companhia um hábito. Ao longo do tempo fui-me dando a conhecer a estas mulheres e criando laços de amizade.

A Eliza também ela com 44 anos, mãe e avó vem das proximidades da capital. Trabalha com o João faz 20 anos e aprendeu através dele, vários trabalhos manuais. "Eu faço compotas, bonecas de trapos, sabonetes aromáticos, bases em bambu com tecido para pratos, brincos...eu faço de tudo um pouco Catarina". Já viveu dois anos no Porto, por motivos de saúde de um filho que felizmente está bem e sabe que o frio de "lá" entranha-se no corpo e lhe corta os movimentos. Ela é mais "atrevida" que as outras e mete todas a trabalhar para ela mas como quem manda ali ainda sou eu, não há cá hierarquias dentro do grupo.

Mas não há malícia, a Eliza é como uma mãe grande que cuida de nós e onde nos sentimos protegidas ao seu lado. Mulher profundamente religiosa e devota a Deus, o toque de telemóvel é o salvo I João 5.13 e quando atende trata todos por irmão. Vai discretamente 3 vezes á casa de banho para rezar e sempre que se lembra, convida-me para passar um fim de semana em casa dela para assim me apresentar a sua igreja. Eu sendo devota do ateísmo desculpo-me de todas as formas agradecendo sempre o seu gesto tão generoso. Ás vezes, recebemos a visita do seu neto "adoptado" o Jocel e eu fico maravilhada com o seu rosto carinhoso e os seus chinelos Crocs miniatura.

A Samy é educadora de infância no jardim escola da roça São João dos Angolares. É de todas a mais experiente nesta área. A mãe é costureira e ela ajuda-a no que pode. A sua filha de 6 anos de vez em quando também nos visita. Uma autêntica boneca de tranças pretas que fica absorvida entre a tesoura, os tecidos e as agulhas na criação dos vestidos para as bonecas. Fez-me lembrar quando eu tinha 6 anos. Que delicia!

A mãe sabe de corte e como usar uma máquina mas existe a vontade de aprender outros métodos e técnicas. Como percebe á primeira acaba por me auxiliar no ensino daquelas que tem maior dificuldade. Na sua maioria aprendem rápido e isso deixa-me feliz, mas há outras.........as condições e o material existente é o que se pode arranjar, as máquinas de costura são três para sete pessoas e eu estou ali para amenizar a "guerra" da máquina de costura. 

Depois de ter apresentado a minha coleção 100% made in São Tomé na I edição do STP Fashion week com o apoio da associação roça Mundo, também ela pertencente ao João Carlos Silva, impressionado com a minha dedicação e paixão pelo seu Pais, fez-me esta proposta que prontamente aceitei. A ideia do João em me convidar faz parte de um plano muito bem organizado que existe só na cabeça dele. Parece tudo confuso á primeira, mas depois as peças do puzzle começam-se a unir. Em tempos foi-lhe gentilmente doado pela empresa Lanidor, rolos de tecidos, caixas de fechos de todas as cores e materiais, fitas, passamanarias, botões, acessórios que dava para abrir uma retrosaria. Fiquei feliz por perceber que tinha material mais do que suficiente para as ensinar a fazer saias, blusas, vestidos, aventais, pois em São Tomé existem poucas retrosarias com variedade e qualidade. Só tenho pena que a maioria dos tecidos eram pretos e quentes. São Tomé é tropical húmido, é proibido usar poliester e fibras sintéticas mas que as há, há!

A Antónia e a Constança eram as mais novas do grupo. Ambas Angolares distanciavam-se pela facilidade com que aproveitavam o projeto. A Antónia destacava-se de todas as outras, percebia á primeira e era bastante perfeita no seu trabalho, só que era traída pela falta de paciência. Mesmo assim, foi recomendada! A Constança por sua vez tinha muitas vezes escola e por isso era menos assídua. Sempre sorridente, na verdade muito sorridente trepava ás árvores para apanhar Goiabas sem que o João a visse. Fazia-me tranças no cabelo e adorava o meu verniz das unhas dos pés. Como tinha muita energia e andava sempre de um lado para o outro, eu pedia-lhe sempre para me trazer um termo de café para tomarmos, de forma a que se mantivessem acordadas depois do almoço. As mais novas, também trabalhavam na cozinha da roça São João e quando o trabalho era muito não podiam aparecer.

Muitas vezes as ouvi dizer que eram "burras" e que nunca iriam aprender, que não conseguiam porque não tinham a experiência. Claro, eu também não conseguia fazer tranças no cabelo tão rápido como elas ou subir ás árvores com tanta destreza. Mas com a minha persistência e ajuda elas iam conseguir. Adoptei a técnica do alfinete, cada vez que diziam que não conseguiam eu ameaçava com o alfinete, um pouco cruel bem sei mas bastante eficaz e a palavra "burra" era proibida dentro daquela sala. Ensinei-lhes algumas técnicas de modelação para elas terem a noção de como se monta uma peça mas muitas adormeciam durante a aula. era de facto complicado e eu sentia-me frustrada com a falta de tempo. Mas no dia que usaram a máquina de costura pela primeira vez era uma alegria para elas e um terror para mim, pois muitas não controlavam o pedal. Mas á medida que iam montando a primeira peça, uma saia preta travada com um pequeno folho para as tronar mais elegantes, era emocionante ver os seus rostos na concretização daquele feito. A alegria era de tal forma que a hora de almoço passou a ser, 10 minutos. 

Aquelas aulas eram de facto desgastantes para mim, porque estavam em ritmos diferentes e eu tinha de explicar vezes sem conta a mesma coisa e quase sempre estar na máquina a fazer o que não foi feito. Houve dias em que tinha mesmo de parar para respirar fundo, mas era compensada com os seus afetos, goiabas e café.

No último dia da formação faltou a luz, tão comum em São Tomé. O combustível do gerador tinha terminado e alguém tinha de ir á vila comprar mais. Precisávamos de acabar os vestidos que todas tinham personalizado a partir do mesmo molde e sem energia não era possível usar as máquinas. No entanto, havia um rapaz Angolano/Sul Africano que estava hospedado por cima da nossa sala  e que eu já o tinha conhecido na cidade. Não me recordava do nome dele ainda hoje não me recordo mas a "personagem " era inesquecível. Veio á nossa sala nos cumprimentar, e nos falar quem era e o que fazia. Entre artista plástico e muitas outras coisas era instrutor de yoga e propôs-nos dar uma aula enquanto a energia não vinha. Eu fiz a tradução do que era a sua definição conceptual de yoga, de uma forma simples e clara porque as minhas alunas não estavam a chegar lá. Escolhemos outra sala da roça com uns janelões enormes virados para as montanhas e o som dos pássaros como banda sonora. Estendemos os nossos panos Africanos no chão para darmos inicio á aula. Como já frequentei aulas de yoga, sabia para o que ia mas as minhas alunas para além de acharem estranhos os sons vindos do professor não se continham em risos. E eu a olhar para elas também não! Lá me esforcei para manter a compostura e fazer o meu papel de professora. Pedi silêncio e concentração. Tivemos alguns minutos de disciplina e até atingimos o ponto de concentração, tal forma que a posição de bebé da Eliza fez soar o seu aparelho digestivo juntamente com o professor que deu a sua contribuição, e antes que passássemos para o relaxamento, a aula tinha-se tornado uma risota pegada. 

A luz veio, e terminámos os vestidos. As lágrimas das alunas caíam-lhes no rosto por terem conseguido e eu abraçada a elas chorava cheia de orgulho e com a incerteza de as voltar a ver.