AS CRIANÇAS

12-08-2019

Quando o brrrranco vai de visita aos pontos mais turísticos de São Tomé ,as crianças estão prontas a nos receber! Dão-nos a mão, pedem-nos para tirar Fotos com a promessa de se verem no pequeno ecrã e muitos "doce doce". 

Ficamos derretidos está claro, isto no primeiro dia, no segundo dia a musicalidade do "doce doce" começa a ser incómoda, mas os sorrisos sinceros acabam por nos derreter o coração e lá tiramos umas fotos de grupo no meio de brincadeiras. Perguntamos o nome, a idade, como vai a escola e como são curiosos, querem sempre saber como é "por lá". Tocam-nos no cabelo para ver como é macio e dizem-nos que somos bonitos, e como querem ser como nós.

Sempre que ia á praia PM ao Domingo, era a única branca por lá. Comprava nas gémeas (na verdade são trigémeas mas uma vive na Guiné equatorial), uma Rosema noiva (gelada) acompanhada com umas espetadas de búzios, dava uns mergulhos na praia repleta de crianças e ensinada aos mais atrevidos a boiar. Quando o fazia, alguns diziam: "A brrrrranca está morta"

Quando havia uma bola ou algo parecido reunia equipas de raparigas contra rapazes e passava o meu dia nisto.


Na praia de Santana era mais ou menos igual, ficavam horas ao meu lado, entre mergulhos e estórias sobre a minha vida em Portugal e a simplicidade das brincadeiras na água, com paus, conchas ou bichos. Prontificavam-se a apanhar cocos ou mangas em troca de algo que eu tivesse para lhes dar mas sempre evitando os doces pois a média é de 3 cáries dentárias e apenas uma minoria tem acesso a cuidados de saúde dentária! 

Ás vezes ajudava as meninas  a lavar a Izaquente ( doce tradicional de São Tomé) . Um fruto esférico gigante a parecer uma "esponja" com umas sementes tipo feijão onde são lavadas em água abundante até ficarem brancas,  dentro de cestos de vime, de modo a tirar a goma.

Beni, Rute e Inês confidenciavam-me que "Brrrrranco tem medo de nós, não fala connosco nem nos abraça" Eu tentava relativizar e convidava-os a uma corrida até ao mar para ver quem chegava primeiro e no fim, dava-lhes um beijo ou colava a cara na areia.

Quando vamos na estrada por volta das 5h da tarde, é notória a massa de crianças de bata azul junto às estradas. A escola do turno da tarde terminou. É certo! Estão na escola a estudar para serem os Homens de amanhã. Como a escola está divida em 2 turnos, ficam com metade do dia livre. As meninas, por norma ficam em casa a ajudar as mães na maioria solteiras e os meninos a brincar na rua.

Em São Tomé e Príncipe as crianças representam cerca de 50% dos 187 mil habitantes do país. Com menos de 19 anos, apresentam uma elevada Taxa de Abandono na Transição do Ensino Básico para o Ensino Secundário, mais concretamente de 71.6%. Este indicador advém de inúmeras problemáticas, entre as quais se destacam: a falta de perspectivas futuras dos jovens, os transportes dispendiosos para escolas, os comportamentos de risco, o trabalho precoce, a ineficácia na resposta das Instituições Locais e o insucesso escolar. Um ano lectivo custa 250 dobras (10€) mas há pais que não pagam, outros que pagam apenas metade. É importante promover junto das mães hábitos saudáveis, como a alimentação, o saneamento e a educação onde as organizações e os programas de apadrinhamento tem tido um papel importante na melhoria das condições das crianças.

No dia 25 de Maio é dia de África, e as crianças na sua grande maioria festejam com réplicas de trajes típicos Africanos, feito no costureiro. O Jardim de infância das madres comemora este dia na rua, num desfile com mais de 200 crianças onde dançam e cantam. As cores são fortes e brilhantes, em estampados Africanos com  origem nos tecidos Holandeses mas infelizmente o meu telemóvel da altura não me permitiu tirar fotos dignas deste momento.