RIO MALANZA

14-07-2018

Sou uma fã incondicional de praias, de mar, sol, calor...E tenho vindo a descobrir que sou fascinada por ilhas, paradas no tempo onde o ritmo não tem pressa e a natureza é protagonista. Isso para mim basta. Em algum momento da minha vida passada eu fui insulada, rodeada de mar e protegida pelos coqueiros. É um facto que a insularidade mexe comigo, sinto-me presa sem o ser dentro do meus limites territoriais sabendo que para sair dali não basta andar. Penso que só me acontece em ilhas muito pequenas, Cabo Verde- ilha do Sal onde vivi e no Príncipe. 

A ilha de São Tomé, também ela pequena mas tão distante pela sua deslocação, torna-se gigante pela variedade natural. As imensas praias, algumas de difícil acesso, a floresta densa por vezes impenetrável, as cascatas que ainda me falta conhecer, e a abundância de água que corre pelos mais de cem rios.

O rio Malanza fica a sul da ilha, num ecossistema tropical de transição entre mar e terra, com a maior área de mangal do pais protegida pela lei do Parque natural Obô antes de chegarmos á península de Porto Alegre. O mangal, é a melhor incubadora natural de peixes, onde desovam no meio das raízes livres dos predadores, assim como algumas espécies de pássaros endémicos, tornam este local o seu habitat exclusivo.

Da primeira vez que lá fui para além da amálgama de mangais e do som do canto ritmado dos pássaros, fui distraída pelas estórias do Borges (o rapaz que veio ajudar o canoeiro que nos levou). Falou-nos de onde veio, dos pesadelos que ainda hoje tem de quando andava na tropa, do seu expediente principal junto das "gatas" São-Tomenses e como de vez em quando consegue umas moçoilas para o turista estrangeiro. O Borges é pescador, vive na aldeia de Malanza, comunidade piscatória localizada na foz do rio e tem uma mota. Tenta ganhar a vida como pode sempre que vê um turista e connosco não foi diferente. O que provavelmente o Borges não sabe, é que um dos encantos da ilha também está nas pessoas que nos fazem rir e esse momento foi superado aos mangais.

Da segunda vez que visitei o Malanza, fui com o grupo de amigos/família "Santolas" passar o fim de semana ao sul. O norte da ilha é deslumbrante, mas o sul lava-me a alma e purifica-me os pensamentos e mesmo na companhia barulhenta entre a música na maior escala de decibéis e risadas, tudo é perfeito.

O meu amigo Edner dono da SWEET GUEST HOUSE e futuro Presidente da República de São Tomé e Príncipe (risos),conhece a ilha e as suas gentes como ninguém. O seu plano era nos levar ao final da tarde a ver Macacos na subida do rio Malanza, mas não acreditei.

Entrámos na canoa a remo em direção ao interior do rio com cerca de 2 quilómetros de leito navegável, onde crianças na sua canoa improvisada praticam a pesca da tainha. Agora com a floresta mais densa, o rio mais manso e o canto dos pássaros mais intenso, avistamos o único primata presente na ilha introduzido pelo homem, o macaco! Sentados na canoa sentimo-nos impotentes e rendidos ao poder da natureza reencontrando a origem do mundo e da vida.

É com o apoio das ONG's OALISEI e MARAPA, ligadas á proteção ambiental que se está a desenvolver um projeto de turismo ecológico de modo a garantir a preservação do ecossistema, onde plantas e animais ameaçados não só pela mão do homem mas devido ás alterações climáticas, são considerados vulneráveis. 

Assim, renasceu a estância Jalé Ecolodje, com 3 bungalows e um restaurante á beira-mar, este serviço hoteleiro serve para sustentar os programas de acompanhamento e monitorização das espécies ameaçadas assim como proteção do parque natural Obô. O rendimento desta eco-construção, garante o financiamento das ações dos técnicos que acompanham o processo de desova das tartarugas. Uma incubadora para tartarugas foi construída no local, e existe um barco para fazer a monitorização as espécies no alto mar.