ESTRADA DO SUL

21-08-2019

A sul da ilha, o Distrito de Caué tem aproximadamente 6 mil habitantes onde a maioria vive abaixo no nível de pobreza e ocupa uma área de 267km2 . A distância que o separa do distrito de Água grande onde se situa a cidade de São Tomé é relativamente curta aproximadamente 50 quilómetros onde o acesso até são João dos Angolares se faz em estrada de alcatrão relativamente bem conservada, contornando a costa entre curvas e declives, coberta de bananeiras e fetos gigantes que ultrapassam os 2 metros. Aqui ainda existem os sinais de transito e os marcos quilométricos em pedra ou cimento armado que me recordam as estradas nacionais do antigamente.

Durante 3 meses percorri esta estrada, quando dei formação de moda no hospital da roça de São João dos Angolares. No inicio foi-me difícil, as curvas e a estrada sinuosa deixava-me bastante enjoada mas na sua grande maioria era culpa do suposto Michael Schumacher que me levava até lá. Mas rapidamente me habituei aquela estrada onde a viagem passou a ser o meu momento de meditação e contemplação mesmo com os anúncios funerários São-Tomenses e a descrição eximia das suas árvores genealógica dos supostos defuntos, da rádio local.

Quando passamos Angolares entramos numa outra era. A estrada, essa sim destruída pela chuva e pelos troncos de árvores caídos, tem uma distância de aproximadamente 15 quilómetros até chegarmos a Porto Alegre, mas é devido ao piso degradado, preenchido por pedras onde o carro se equilibra em duas rodas no passeio de cimento, que demoramos aproximadamente 1 a 2 horas.

Alguns minutos dali surgem as primeiras palmeiras, alinhadas em fileiras num tapete geométrico até ao limite onde a floresta foi invadida. Na estrada ao fundo, vê-se uma elevação de 663 metros de altitudepronunciadamente aguda de origem vulcânica. O pico cão grande, cenário digno de um cartão postal é na verdade uma das imagens mais icónicas de São Tomé, mas esta dualidade é motivo de discórdia entre cidadãos, organizações não-governamentais, empresas e administração central. Aquelas palmeiras fazem parte de uma exploração agro-florestal onde implica derrubar áreas de floresta para produzir óleo de palma.Esta história não se encaixa numa divisão simplista entre destruidores e defensores da natureza. O pais é pobre, com poucas oportunidades laborais, as roças que um dia alimentaram a economia colonial estão quase todas falidas e degradadas e o pais precisa de investimento. No entanto a população não está disposta a aceitar de animo leve.

Aqui, a economia, o ambiente e o bem-estar social supostamente de mãos dadas no desenvolvimento sustentável, não estão a funcionar. O governo negociou há cinco anos atrás com uma sociedade Belga cujos responsáveis estão ligados a área das renováveis, uma parceria de modo a ressuscitar o que em 1980 foi uma empresa de óleos vegetais com 600 hectares.

A ideia é re-plantar e ampliar a área para 5000 hectares e construir uma fábrica de modo a produzir 20 mil toneladas de óleo de palma por ano, parte para consumo local mas na sua grande maioria para exportação.