A HIACE

19-08-2019

São Tomé, Budo Budo, 8.13 da manhã.

Foi-me pedido para as levar até á praia. Diga-se praia de água azul celeste, areia branca e sombra de coqueiro. Na cidade as praias não são propriamente dignas de um cartão postal mas para uma local como eu e sem viatura própria, serve. No entanto, quem vem de férias quer um cenário paradisíaco para mais tarde recordar e postar nas suas redes sociais.

São Tomé não é um destino barato, daqueles de pacote com tudo incluído e pulseira no pulso, bar aberto enfiado na piscina do resort. Ali há um mundo por descobrir tão diferente e que nos ajuda a compreender tanta coisa errada que existe no nosso. As suas paisagens fazem-nos perder no tempo a contemplar e percebermos que o universo é prefeito. Se fores como eu, vais querer te envolver com as pessoas dali, saber das suas estórias, da sua maneira de viver a vida ou simplesmente  sorrir.

Naquele dia estávamos sem carro então decidi levá-las no transporte mais comum de São Tomé, a HIACE (iásse). Estas carrinhas de 9 lugares, transportam tudo o que caiba lá dentro ultrapassando a lotação esgotada. Para além das pessoas levam as suas compras do mercado que inclui bacias de peixe seco onde o cheiro nos bloqueia os sentidos. Como é um transporte relativamente barato (uma viagem de 15km fica 15 dobras - 0,60€), os locais por norma usam-no com frequência assim como o táxi. Há dois tipos, os amarelos que podem ser divididos, alguns em bom estado outros que mais parecem sucata e os pretos da empresa ponta D'Ouro, semelhantes aos nossos onde inclui ar condicionado, taxímetro e número de telefone para chamar. O uber lá da zona!

Mas voltemos á HIACE, este transporte tão comum em África onde cada viagem é uma aventura. Elas estão espalhadas no centro de São Tomé, entre o mercado novo (não tão novo assim) e o velho, estrategicamente alinhadas e separadas por zonas. Não é muito comum ver o branco a viajar numa, mas eu sou aventureira e tento viver como um local. Enquanto Na espera, enquanto nos espremem lá para dentro, há vendedores de tudo e mais alguma coisa, pasta de dentes colgate árabe, bolachas e doces, pentes e escovas para o cabelo, material escolar suspeito, tudo que lhes permita ganhar a vida. Por vezes o motorista pergunta se queremos ir na frente, não sei se para estarmos mais cómodos e porque somos estrangeiros ou para vermos as vistas mas, eu só aceito se for convidada ou não houver outro lugar. Na verdade os nove lugares traduzem-se em 12 a 15 pessoas tipo sardinhas enlatadas. Homens, mulheres, crianças, novos e velhos ,tudo ao monte numa alegria pegada. Quem viaja nela todos os dias sabe que existe uma estratégia, tipo puzzle onde todos encaixam, uns encostam-se no banco outros chegam-me á frente e já está! Cabem todos. 

Uma vez mandaram alguém literalmente para o meu colo, estava tão apertada que reclamei, mas não tive hipótese e pediram-me dois bilhetes caso quisesse ir "mais á larga".

Também já fui enganada no custo do bilhete por isso é sempre bom perguntar ao vizinho do lado o valor real da viagem para não sermos "comidos". Os motoristas são na sua grande maioria honestos e prestáveis, alguns contam-nos histórias da ilha, recomendam-nos os melhores sítios a visitar, onde comer ou nos falam das suas vivências em Portugal. Alguns tem a sua HIACE muito bem estimada, com ambientador e plasma a passar videoclips de kizomba onde todos cantam em sintonia, cachecóis do seu clube desportivo, ou mesmo flores de plástico a decorar. Outras há, que portas não fecham, ou o limpa vidros não funciona tal é a sua degradação. Mas não esqueçamos que esta carrinha é um transporte público, e qualquer transporte desta categoria é digno de aventuras e estórias para contar.

Outro meio de transporte bastante comum é a moto. Normalmente são da marca Suzuki ou sukida, uma marca chinesa cópia da marca japonesa com um preço bem mais apetecível, 150 de cilindrada e líder de mercado. Confesso que no inicio fui resistente a andar de motoqueiro. Podia ser qualquer um, uma vez que não estão identificados nem tem seguro na sua grande maioria, o passageiro não usa capacete e os preços não são tabelados. Mas á medida que o tempo passa começamos a perder as manias da Europa e nos tornamos num deles. A moto é rápida, barata e eficaz permitindo-nos chegar ao destino na companhia de um estranho. Esticamos a mão, damos a indicação do nosso destino e lá vamos nós... e no final, era o meu momento do dia preferido.